Possibilidades para ascensão das mulheres nas Lavras
Histórias sobre opulência e ostentação feminina ambientadas nas Lavras baianas durante a segunda metade do século XIX são fontes de inspiração para romancistas, memorialistas e narradores de outras naturezas. Esses sujeitos esmeraram-se em construir cenários nos quais se viam mulheres formosas, em vestidos pomposos, adornadas por joias e outros atavios, cheirando a fragrâncias vindas da Europa em formato de pós, produtos para os cabelos e muitos outros itens de perfumaria.
As histórias que se contam sobre Dona Maria Alexandrina dos
Santos Pereira reforçam as ideias de fausto das mulheres. Diz-se que ela foi casada com o Comendador
Joaquim José Pereira, abastado comerciante cachoeirano que se estabeleceu em
Lençóis logo no início das catas diamantinas. Como forma de demonstrar o
sucesso de seu marido, D. Maria Alexandrina não tinha mãos a medir seus atavios
e, por isso, fazia questão de mostrar em público, fosse dia ou noite, suas
ricas joias de ouro. Como seus adornos tinham a mesma cor dos seus cabelos, logo
a população lhe deu a alcunha de Iaiá Douradinha[1].
Apesar das narrativas de suntuosidade, a realidade aparente nos
documentos que consultei é diversa. Certo número das habitantes de
Lençóis conseguiu angariar algum patrimônio, entretanto as fontes sugerem que
as proporções das que viveram esbanjando riqueza foi bem aquém das imaginadas
pelos romancistas e memorialistas. A maior parte das mulheres reais reuniu o
suficiente para se localizar em faixas medianas de riqueza, ao passo que somente
um reduzidíssimo número delas alcançou fortunas de grande dimensão. Esses dois
conjuntos de mulheres eram, significativamente, menores que daquelas que
viveram entre a miséria e a pobreza.
Inventários post mortem indicam que, entre as mais
abastadas, muitos dos haveres deixados na hora da morte, foram rendimentos de
suas agências. Isso corrobora a visão de que essas personagens estiveram longe
de cumprir o ideal de docilidade e de domesticidade vitoriano que circulava
entre os grupos de elite naquela época. De modo geral, foram ativas na
sociedade chapadense e conquistaram espaços por meio de suas estratégias de
vida, se valendo de diferentes recursos e oportunidades, sobretudo no mundo do
trabalho, ao longo de suas trajetórias de vida.
Quando da análise do total de inventários, percebi que a maior parte das titulares deixou pecúlios capazes de garantir algum afastamento da pobreza. Com tais dados foi possível perceber que mais da metade das mulheres deixou fortunas entre 1:000$000 e 5:000$000 réis. Tais proporções reafirmam uma tendência de concentração de riquezas nessa faixa no sertão baiano, como verificado por Paulo Duque Santos[2], em seu estudo sobre a economia caeetiteense na transição do Império para a República. Na amostra utilizada pelo historiador, os inventários lavrados na região a partir dos anos 1890 tiveram montes-mores de tais proporções alcançando margens sempre superiores aos 43%[3].
De todo modo, a grande concentração na faixa que vai de
1:000$000 até 5:000$000 réis não representa grande participação feminina entre
a riqueza da região, tampouco uma distribuição de renda igualitária. Se
considerarmos as estimativas de que mais de 95% da população feminina morreu sem
deixar bens, como aventam historiadores da realidade baiana do século XIX,[4]
podemos afirmar que esse era, em realidade, apenas um pequeno contingente.
Assim, o número de mulheres em grupos médios e altos importa em uma parcela
mínima das viventes nas Lavras. Apesar das profundas diferenças nos totais das
fortunas, a composição dos patrimônios dos grupos era semelhante. Escravos,
bens de raiz e dívidas ativas foram os indicadores de riqueza mais frequentes.
O projeto tem
apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da
Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc,
direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo,
Governo Federal
[1] Cf. Nadir Ganem, Lençóis de
outras eras, Brasília: Thesaurus, 2001; Eduardo Silva. Dom Obá II d'África, o príncipe do povo: vida, tempo e pensamento de um
homem livre de cor, 1. reimpr. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
[2] Paulo Duque Santos, “Légua
tirana: sociedade e economia no alto sertão da Bahia. Caetité, 1890-1930” (Tese
de Doutorado, Universidade de São Paulo, 2014), passim.
[3] Santos, “Légua tirana”, p. 66.
[4] Walter Fraga Filho, Mendigos,
moleques e vadios na Bahia do século XIX, São Paulo: HUCITEC; Salvador: EDUFBA,
1996; Katia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX: uma província no Império,
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; Katia M. de Queirós Mattoso, Bahia: a
cidade do Salvador e seu mercado no século XIX, São Paulo: HUCITEC, 1978.

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