Histórias da Bahia: as mulheres na Chapada Diamantina no século XIX
A mineração marca alguns capítulos importantes da história da Bahia. Desde os tempos coloniais, as serras eriçadas nos vastos sertões[i] baianos foram devassadas pelo trabalho dos mineradores. Esses sujeitos se moviam por aquela paisagem com um objetivo bem claro: extrair as riquezas minerais que se escondiam naquele subsolo. Durante os séculos XVII e XVIII foi o ouro das Jacobinas que avultou os cofres da Coroa portuguesa[ii] e que deram visibilidade tal área do território baiano. Já no século XIX, sobretudo a partir da segunda metade, o diamante suplantou a indústria aurífera e ocupou o posto de principal propulsor da mineração em terras baianas.[iii]
Durante estes três séculos a atividade
mineradora transformou aqueles sertões e, a extração do diamante, contribuiu
para a definição da zona que viria a ser chamada de Chapada Diamantina. A
abertura das frentes de trabalho, a implantação de fazendas e a urbanização das
povoações e seus povoamentos foram os principais catalisadores das transformações
daquela área. A partir daí, podemos dizer que as pessoas atraídas pelos
garimpos foram os principais ocupantes daqueles sertões. Nos anos 1800, muitos
braços foram atraídos pela esperança de encontrar a riqueza na Serra do Sincorá,
gerando um influxo populacional inédito na área em questão.[iv]
Em 1853, quando a fama das riquezas das
minas diamantíferas da Bahia corria pelo Império do Brasil, o Presidente da
Província, o doutor João Maurício Wanderley, deu mostras do impacto
populacional na zona dos diamantes em sua fala na Abertura da Assembleia
Legislativa daquele ano. Wanderley atribuiu as transformações que tomaram lugar
naquela região “(...) aos milhares de aventureiros de todas as Provincias, que
busca [va]m fortuna nos terrenos diamantinos, sitos no Municipio da Villa de
Santa Izabel”.[v]
Esse movimento migratório, contudo,
geralmente é narrado com protagonismo masculinos. Essas narrativas escamoteiam
a ação feminina na região no período de referência e tal lacuna precisa ser
preenchida, uma vez que, como se verá nos próximos textos, elas foram elementos
fundamentais para a sociedade do diamante. As mulheres lavristas foram privadas
de uma história própria; quando são citadas, aparecem esparsamente em obras
sobre a região ou sobre os garimpeiros. Alguns estudos históricos e memorias
descrevem a sociedade lavrista como se elas fossem apenas coadjuvantes, as representando
a partir de dois estereótipos em polos opostos: o primeiro, o da mulher
recatada, maternal, presa ao lar e submissa ao marido; e o segundo, o da mulher
da rua, de hábitos considerados pouco civilizados e contrária ao ideal de
docilidade. Vez ou outra, surgem algumas personagens no entremeio, mas que são
rapidamente sobrepostas pela força dos extremos narrativos.
Os ideais de feminilidade vigentes no
século XIX silenciam as mulheres na história, com algumas variações de acordo
com o grupo social que integravam. Enquanto as mulheres dos grupos mais
destacados, geralmente, eram sombreadas pelos seus representantes masculinos,
fossem eles pais, irmãos ou maridos, a quem chamavam “cabeça do casal”, o que,
de certo modo, as exclui dos arquivos; as muito pobres permanecem pouco
conhecidas pois, além dos poucos registros sobre suas vidas, a conservação desses
documentos que ainda existem deixa a desejar, resultando em uma invisibilidade
ainda mais severa.
Com uma pesquisa sobre as mulheres e seus
meios de vida na Chapada Diamantina durante o século XIX que resultou em uma
tese de doutorado, percebi que as mulheres que viviam ali foram mais ativas do
que a memória faz supor. Além de inventarem seus meios de subsistências e de
integração àquela sociedade, essas mulheres desenvolveram formas de lutar
contra as pressões do poder senhorial, produtor das precariedades que elas
experimentavam em um mundo do trabalho limítrofe à escravidão. Em seus
cotidianos não foram silenciadas, como mostram a memória e a historiografia
sobre a Chapada Diamantina com foco no garimpeiro, no homem de negócio e no
político. Ressalta-se que esses últimos personagens ainda dominam a cena historiográfica,
supervalorizando o poder patriarcal e a opressão que essa política representou
no apagamento potencial da agência feminina naquele tempo-espaço.
Com a apresentação de textos nesta
plataforma, busco demonstrar que a atuação feminina na sociedade dos diamantes foi
diferente daquela que foi pintada até recentemente. Evidentemente, não tenho a
pretensão de reescrever a história chapadense, mas demonstrar o protagonismo
feminino, ou seja, do lugar de sujeito negado às mulheres na historiografia da
Bahia.
[i] Diferentes autores concordam que,
no século XIX, o termo “sertão” estava associado a espaços
distantes
do litoral, incivilizado, pouco povoados e marcados por uma insipiente presença
do poder
público.
Cf. ARRUDA, 2000; NEVES, 2007.
[ii] Cf. VASCONCELOS, 1997; VIEIRA
FILHO, 2009.
[iii] Cf. PINA, 2000; NEVES, 2005.
[iv] Serra que margeia o Rio Paraguaçu
e sobre a qual surgiram as principais cidades mineradoras da Bahia
[v] Falla que recitou o exm.o
presidente da provincia da Bahia, dr. João Mauricio Wanderley, n'abertura da
Assembléa
Legislativa da mesma provincia no 1.o de março de 1853, p. 3.

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