Dizem as “costureiras”

 


Para as mulheres pobres do século XIX, não ter um ofício definido poderia implicar na classificação de desocupada ou prostitutas; ambas extremamente perigosas para quem vivia no meio do povo.[1] Diante dessa situação, muitas mulheres quando submetidas pressões das autoridades ou de grupos superiores, dissimulavam suas ocupações nas declarações que faziam em juízo. Dizer-se costureira, por exemplo, era uma estratégia válida e corriqueira para repelir suspeitas de uma vida pública nas Lavras. Costurar era uma atividade realizada, primordialmente, em ambientes privados e domésticos, recôndito feminino preferencial naquela época.

Dizer-se costureira garantia um afastamento do universo da rua, tão profundamente condenado pela Justiça e pela sociedade oitocentista. Essa era uma dinâmica observada ao longo do sertão baiano, como aponta Maria de Fátima Novaes Pires.[2] Em Caetité e Rio de Contas, cidades privilegiadas nos estudos de Novaes, as costureiras eram bastante populares nos autos judiciais. Nas Lavras, essa tendência se repetia, como se poder ver no processo que envolvia três mulheres em um caso de agressões ocorrido na Povoação do Barro Branco na tarde de 1º de abril de 1883.

Joanna Francisca de Oliveira e Maria Zigue-Zigue dividam em harmonia uma casa no entorno do garimpo do Barro Branco, povoação da cidade de Lençóis. Entretanto, uma briga – mal esclarecida no inquérito policial que se instaurou a partir dela – pôs fim à amizade que já durava muitos anos. A cena do desentendimento, na qual apareceu ainda Maria Branquinha, foi narrada da seguinte maneira pelo promotor do caso:

                 

No dia 1º do corrente mez [abril de 1883] das 5 para as 6 horas da tarde na Povoação do Barro branco deste Termo, as denunciadas Maria Zigue Zigue e Maria Branquinha aggredirão a offendida Joanna Francisca de Oliveira travando-se a primeira denunciada com a dita Joanna uma luta de sangue em que se acharão ellas armadas de faca e punhal nao tendo se verificado na luta a morte da offendida, por que forão as denunciadas obstadas pelo Cidadão Manoel José de Carvalho, que immediatamente se aprezentou e prendeo-as em flagrante, tomando conta depois das prezas o respectivo Inspector de Quarteirão que fôra logo chamado pelo dito Carvalho, o qual com custo conseguiu desarmar a Maria Zigue Zigue, não podendo desarmar a Maria Branquinha por não haver quem o auxiliasse no acto da dita prizão; sahindo a referida aggredida Joana ferida gravemente com diversas punhaladas dadas pela mencionada Maria Zigue Zigue e também ferida esta. (sic)[3]

 

Sobre o motivo da briga, as testemunhas interrogadas afirmaram nada saber. Todavia, foram unânimes em dizer que Joanna e as Marias, Zigue-Zigue e Branquinha se davam muito bem e que, naquele mesmo dia, mais cedo, estavam bebendo "caxaça" na venda de Antônio Ferreira Leite. Ainda segundo os relatos das testemunhas, a confusão começou na dita venda e seguiu para a rua. Quando interrogadas, as três demonstraram que estavam submetidas às condições materiais de existência semelhantes. Joanna Francisca de Oliveira, com 15 anos, solteira e natural do Campestre, afirmou que ganhava a vida com costuras, assim como as outras duas.

Diante dessas declarações, é possível pensar que nenhuma das três vivia, exclusivamente de costuras. Entre as mulheres das camadas populares do Império, os arranjos de trabalho tendiam a ser multiformes. A atuação em diferentes negócios era uma realidade entre as trabalhadoras no Brasil desde o século XVIII. Comércio, serviços domésticos, ligações com a agricultura e, quando as condições permitiam, negócios financeiros, aluguel de animais e de escravos eram elementos que se organizavam de maneiras fluídas na dinâmica de vidas dessas mulheres. Isso acontecia porque elas eram conscientes de que, para viverem do melhor modo que podiam, precisavam aproveitar as oportunidades de renda que apareciam.

Mesmo essa dinâmica sendo desgastante, não deixava de ser valorizada, pois significava a possibilidade cotidiana de um exercício de liberdade. Sandra Lauderdale Graham[4], em um estudo sobre o trabalho feminino durante a transição do século XIX para o XX, auxilia-nos a entender tal situação. Graham aponta que as mulheres pobres e escravas que viviam no Rio de Janeiro compuseram sua renda de diferentes modos e, geralmente, desenvolveram atividades lucrativas tanto no centro da cidade quanto nos subúrbios, onde habitavam.

Com esse comportamento, as mulheres não somente conquistaram certa independência financeira, como também sofriam desconfiança sobre seu modo de vida. Por trabalhar em diferentes áreas, poderiam declarar como ocupação principal qualquer uma de suas atividades, de acordo com a conveniência do momento em que eram questionadas sobre o assunto. Desse modo, diferentes setores da sociedade acusavam-nas de levar uma vida que desafiava a ordem e a moral oitocentista. Esse fenômeno também marcou o cotidiano das mulheres chapadenses que, de acordo com suas necessidades, oscilavam entre diferentes ocupações. Por isso, acredito que nenhuma das moradoras do Barro Branco, as quais foram mencionadas, vivia somente de suas costuras. Dizer-se costureira, portanto, poderia ser mais uma estratégia para esquivar-se das pressões ordenadoras daquela sociedade do que uma ocupação única.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 

 

 



[1] Sobe o conceito de desocupado Cf. Celia Maria Marinho de Azevedo, Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites-século XIX, São Paulo, Annablume, 1987.

[2] Pires, Fios da vida, pp. 222- 26.

[3]Processo-crime, 01.04.1883, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (crime), Homicído, estante 05, caixa 189, documento 07.

[4] Graham, Proteção e obediência


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