Dificuldades para viver entre os garimpeiros: a pecha de “mulher da roda”


As mulheres pobres, sobretudo as negras, sofriam nas Lavras com o estigma da prostituição. Nesse sentido, o termo prostituta passou a ser empregado a rol amplo de trabalhadoras que desempenhavam atividades na rua, o que explica, em partes, a popularidade dessa personagem na literatura sobre a região. Nas povoações da Chapada Diamantina no século XIX, a oferta de empregos domésticos não acompanhava a demanda por eles. Do mesmo modo, essas ocupações traziam o risco de se estabelecer uma relação no limar da escravidão, o que não era interessante para as mulheres que buscavam efetivar sua liberdade.

Há de se considerar ainda que, na região, não havia uma lavoura expressiva para empregar as mulheres, tampouco sinais de industrialização. O garimpo, embora pungente, era severamente masculino. Por isso, as ruas acabaram se tornando o lugar preferencial de atuação feminina, como em outras partes da Província e muitas cidades do Império[1]. Aquelas que trabalhavam nos espaços públicos eram vistas com desconfiança pelos grupos zelosos pela moralidade da época. Assim, a vivência feminina pública era frequentemente associada à prostituição e práticas relacionadas, como a alcoviteirice.

Sobre os ambientes públicos, médicos, juristas e parlamentares, além da Igreja, diziam que esses locais atraíam criminosos e degenerados. A Faculdade de Medicina da Bahia foi um ambiente fértil para o desenvolvimento dessa linha de pensamento. Em sua tese de doutoramento[2], defendida em 1853, o médico baiano Marinônio Britto afirmou que o jogo e a libertinagem estavam unidos como grande malefício para a sociedade baiana daquela época.

 

Basta que os libertinos - quer de um - que de outro sexo soffrão o despreso de toda a sociedade, como paga de suas baixas qualidades; bastam que sejam banidos, e enxotados das companhias, em que preside uma sã honestidade; basta que todos saibão dar o devido apreço á homens que qualidades tão perversas alimentão.

Quem deixará de preferir a sociedade onde impera a virtude, e a honra para se conspurcar no nojento lamaçal da devassidão, da crapula e do jogo? (sic)[3]

 

Essa visão condenava, sem distinções, o cotidiano da camada pobre da sociedade. As mulheres que dependiam dos espaços, em que imperavam as “baixas qualidades”, para sobreviver., portanto, contrariavam as noções de virtude e de honra cultivados pelas elites e, por isso, estar nesses lugares não permitia que as trabalhadoras se diferenciassem umas das outras. Assim, poderiam ser acusadas de se prostituir tanto as mulheres que trabalhavam quanto as sem ocupação regular, por exemplo. Nesse contexto, podemos perceber que a prostituição é um conceito amplo, que envolve mulheres das mais diversas e práticas de trabalho variadas que podem sequer estarem ligadas a questões sexuais.

Estar entre os homens era outro sinal de menoscabo e um dos elementos fundamentais de imputabilidade de uma vida desregrada sobre as mulheres. Se sujeitos fossem recebidos nas casas das mulheres, ou se elas os encontrassem em moradas alheias, esse comportamento não era bem-visto pela sociedade e poderia gerar especulações capazes de dificultar a existência da protagonista do assunto naquela sociedade. Assim, algumas mulheres poderiam receber facilmente a alcunha de "mulher da roda". Com isso, é observável que não havia limites entre o público e o privado quando o assunto era o comportamento feminino e que, o universo do trabalho permeava diferentes esferas. Sabendo que mesmo quando os ajuntamentos ocorriam por detrás das portas a população logo sabia do ocorrido e, atribuía às envolvidas a pecha de respeitarem pouco aos ditames da conduta feminina da época. Dessa maneira, a associação com o universo da prostituição era compulsória e poderia refletir mais aos modos como as mulheres compunham suas existências do que, efetivamente, a troca de favores sexuais por vantagens pecuniárias.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 



[1] Sobre o trabalho feminino nas ruas da Bahia e de outras partes do Império Cf. Marilia Bueno de Araújo Ariza, O ofício da liberdade: contratos de locação de serviços e trabalhadores libertandos em São Paulo e Campinas (1830-1888), São Paulo, Alameda, 2014; Emilene Ceará Barboza “Vivo do meu Trabalho”: Mulheres Pobres na São Paulo em Fins do Império (Décadas de 1870-1880) <http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/305.pdf>, acessado em 25.04.2017; Dias, Quotidiano e pode; Luciano Figueiredo, O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII, Rio de Janeiro, José Olympio, 1999; . Edunb, 1993; Richard Graham, Alimentar a cidade: das vendedoras de rua à reforma liberal (Salvador, 1780-1860), São Paulo, Companhia das Letras, 2013; Graham, Proteção e obediência; Soares, Mulher negra na Bahia no século XIX.

[2] Marinonio de Freitas Britto, “A libertinagem e seos perigos relativamente ao physico e moral do homem” (Tese de doutorado, Faculdade de Medicina da Bahia, 1853).

[3] Britto, “A libertinagem e seos perigos”, p. 23. 

 

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