Diante da ausência feminina na literatura
memorialística da Chapada Diamantina, a literatura dita telúrica ajuda a
entender algumas possibilidades de existência das mulheres na região. Três
autores e quatro obras são fundamentais neste sentido: Cascalho e Além
dos marimbus de Herberto Sales; Bugrinha, escrita por Afrânio
Peixoto e; Maria Dusá de autoria de Lindolfo Rocha. Os autores, todos de
origem chapadense, se preocuparam em criar ficções ambientadas na sociedade
lavrista baiana de finais do século XIX e início do XX, colocando nuances
realistas e regionais em suas obras.
Todavia,
o último título, publicado pela primeira vez em 1910, merece destaque, pois traz
maiores referências às mulheres dali e por isso merece um debate específico.
O texto de Lindolfo Rocha foi escrito no
vão das visões antagônicas sobre as mulheres presente no século XIX. Entre a
rua e a casa, a mundana e a esposa – os estereótipos opostos da época –, muitas
mulheres aparecem e a trama se assemelha bastante com narrativas encontradas em
documentos da época e relatos memorialísticos sobre aquela área, com a
diferença de colocar em primeiro plano as existências femininas. Por isso e
para entender a potencialidade do romance para os estudos históricos sobre as
mulheres chapadenses, vale conhecer melhor a trama e algumas de suas
peculiaridades antes de continuar.
Em Maria Dusá, as mulheres são
retratadas em diversas condições. Tendo como pano de fundo as cidades da
Chapada Diamantina que se destacaram durante a segunda metade do século XIX, o
romance narra a história de irmãs gêmeas, ambas de nome Maria, que foram
separadas muito cedo e que seguiram, à medida que cresciam, vidas bem
diferentes até o reencontro no Andaraí por volta dos anos 1860. A partir daí, a
trama se intrinca de modo que ambas trocam de papel e uma assume a identidade
da outra, o que as conduz a finais distintos.
A protagonista da história fora batizada
Maria Emerentina Alves. Na ficção, ela teria deixado a casa dos pais ainda
muito menina. Esse era o motivo dela não guardar lembrança de sua origem nem de
seus parentes, tampouco da irmã gêmea que só conheceria no desenrolar do
romance. Vinda da região da Barra, –
zona que a documentação censitária e judiciária aponta como tradicional
fornecedora de indivíduos para o trabalho no garimpo de diamante e um dos
primeiros indícios do compromisso do autor com a realidade das Lavras – sua
sorte começou a mudar quando chegou ao Mucujê, como era popularmente conhecida
a cidade de Santa Isabel que, antes da emancipação de Lençóis em 1854, era o
centro dos negócios lavristas. Na história, ao se tornar amásia do “Conde da
Passagem”, ela pôde melhorar de vida.
No trecho de apresentação da protagonista,
Lindolfo Rocha se preocupou em evidenciar elementos da formação da sociedade chapadense.
Desse modo, vale começar pela ideia de migração. Maria Dusá e o Conde da
Passagem são migrantes, assim como, quase todas as outras personagens. Essa
realidade sublinha a trama desde seu início. Até a altura do texto em que Dusá
é efetivamente apresentada ao leitor, no final do primeiro terço do livro,
muitas origens são citadas e depois delas muitas outras vão surgindo. São
portugueses, judeus, mineiros e sertanejos das mais variadas partes da Bahia e
além, que surgem como amostra da diversidade de pessoas e costumes que
circulavam naquela zona.
Isso demonstra também uma preocupação com
a experiência das pessoas que, assim como o próprio autor, viveram ali naquela
época. A
opção estilística de Rocha – uma vez que o autor se dedicou a compor personagens
que estabelecem um diálogo claro com as experiências dali – descreve mais que a
personagem, sendo preciso considerar as possibilidades de existência que ela
sugere. Para uma mulher pobre e desvalida, a Chapada Diamantina representava um
local em que se poderia melhorar de vida. Valer-se das oportunidades para isso
poderia significar uma mudança completa, a ponto de não restar mais passado de
miséria. Ao trocar o nome de batismo pela alcunha, Dusá apagou a memória da
pobreza.
Apesar da centralidade feminina na obra, o
romance se desenvolve com um tom condenador. O desenrolar da trama revela uma
visão moralizadora sobre a mulher, em sintonia com os ideais da época em que o
autor viveu e que certamente interferiram na existência de personagens semelhantes
para além da ficção. São recorrentes menções a ela e a outras mulheres que
compartilhavam do mesmo universo de vida como “messalina”, “mundana”,
“decaída”, “perdida” e tantos outros termos que designam mulheres que se valiam
de estratégias sexo-afetivas para burlarem a pobreza nas Lavras. Isso aponta
uma condenação de uma fatia consistente da população de mulheres que viveram na
Chapada Diamantina, que como muitas de outras áreas do Brasil recorreram a
expedientes parecidos para aliviar o sofrimento causado pela pobreza.
Lindolfo Rocha deixa claro em sua escrita
que esse tipo de comportamento não é o que se esperava de uma mulher naquele
tempo. A vida mundana deveria dar lugar ao recato e à honra, por isso colocou a
personagem em um caminho de redenção social. Arrependida e envergonhada por
seus meios de vida, Dusá resolveu então se lançar no garimpo. Para isso, fez
sociedade com alguns homens de sua confiança e, com investimentos próprios em
material e pessoal começou sua caminhada para o apagamento de mais um capítulo
de sua história. Esse momento do romance mescla duas categorias importantes
para o pensamento sobre a sociedade brasileira de finais do século XIX e início
do XX que, irmanadas, condicionavam a vida das mulheres também: trabalho e
moralidade.
O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal
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