As donas das casas

 


 As mulheres que lutaram para sobreviver nas Lavras e que conseguiram êxito nas suas agências materiais, se importaram em reunir bens de raiz, como são conhecidos os imóveis. Na maioria dos casos, havia a ocorrência de residência na qual a titular do inventário morava. Entretanto, em diversas outras situações, os valores e a multiplicação de propriedades dessa natureza apontam que esses haveres serviam para fins além da necessidade básica de um teto sob o qual se poderia viver.

Joana Maria de Jesus[1] era um exemplo de mulher, bem-sucedida, que decerto se dedicou à exploração de bens de raiz com imóveis urbanos. Quando seus bens foram avaliados em agosto de 1860, ela somava 10:700$000 réis em casas e terrenos para casa dentro da cidade dos Lençóis ou a pequena distância. Ao todo foram doze imóveis com cotações muito variadas que valem ser vistos com um pouco mais de detalhe; por isso os apresento no quadro adiante.

 

Imóveis urbanos de Joana Maria de Jesus

Propriedade

Endereço

Valor

Casa térrea

Beco do Ingrunado

125$000

Morada de sobrado

Beco do Ingrunado

4:000$000

Posse para casas

Rua Aprígio Leão

150$000

Posse para casas

Rua da Boa Vista

120$000

Posse para casas

Rua da Boa Vista

800$000

Morada de casa

Rua do Beco               

125$000

Casa térrea coberta de telha

Rua do Curral

350$000

Casa térrea coberta de telha

Rua do Curral

350$000

Casa térrea coberta de telha

Rua "por detrás da do Rozario"

300$000

Morada de casa

Rua "por detrás da do Rozario"

300$000

Posse para casas

Rua "que desce para a do Curral"

80$000

Casa de morada e roça

Margem do rio São José

4:000$000

 

Fonte: Inventário de Joana Maria de Jesus, 24.08.1860, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 03, caixa 1045, maço 1514, documento 18

 

No documento não há referências a datas de aquisição ou se os imóveis passaram a sua titularidade por meio de sucessões. Vale também considerar que Joana Maria de Jesus não deixou de explorar a terra, uma vez que uma propriedade de valor – e seguramente, proporção – considerável foi arrolada entre os bens de raiz. Entretanto, é importante ter em conta que essa foi apenas uma, demonstrando que ao contrário da maioria das mulheres, seus investimentos foram realizados em imóveis residenciais de diferentes modelos, inclusive suplantando o montante imobilizado em terras. As casas e posses para casas de Joana Maria também revelam a variedade das propriedades no centro dos Lençóis.

Acredito que a morada de sobrado no Beco do “Ingrunado” era a habitação da inventariada, ao passo que as demais residências serviam à obtenção de renda. Nesse mesmo endereço, como visto, havia o sobrado de 4:000$000 réis e uma das casas mais baratas do rol de bens, avaliada em 125$000 réis. Na rua da Boa Vista, do mesmo modo, as posses para casas receberam cotações bem discrepantes. Esses dados sugerem que pessoas tão diferentes, entre si quanto os imóveis, compartilhavam espaços e isso poderia impulsionar a demanda por habitações, gerando assim também o interesse de pessoas como Joana Maria em aumentar seus patrimônios em imóveis residenciais, a fim de conseguir, com isso, seu meio de vida e de participação naquela sociedade.

Ao refletir sobre a localização dos imóveis pertencentes ao patrimônio de Joana Maria de Jesus, podemos inferir que o espaço urbano favoreceu a aquisição desses imóveis. com base nas informações do inventário e atento às limitações delas, tracei na ilustração a seguir um esboço da distribuição geográfica das casas e posses de casas de Joana Maria que demonstra sua atuação por toda a cidade.

 

Localização dos imóveis de Joana Maria de Jesus

 

 

 

 

LEGENDA

Posse para casa

Casa

Possível endereço de casa

 

Fonte: Mapas blog, “Mapa de Lençóis”, https://mapasblog.blogspot.com/2011/02/mapas-da-chapada-diamantina-ba.html; Inventário de Joana Maria de Jesus, 24.08.1860, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 03, caixa 1045, maço 1514, documento 18.

 

 

Salienta-se que as notações imprecisas dos avaliadores – como se viu no caso das ruas “por detrás do Rozario” e “eu desce para a do Curral” – aliadas ao uso de nomes não oficiais, à mudança nos nomes das ruas e a ausência de documentação indicando as alterações não permitiram definir, com precisão, os endereços dos imóveis em questão.

Evidentemente que, o espaço urbano e seu mercado de imóveis não foi, exclusivamente, explorado pelas mulheres. Todavia, vale refletir que uma vez que os olhares da maioria da população estavam voltados para o garimpo e para a produção agropastoril, a exploração imobiliária veio a ser uma alternativa para atuação de mulheres que não quiseram ou puderam ingressar nos filões mais tradicionais da economia lavrista. Além disso, ter diferentes imóveis garantia uma renda considerável através do aluguel e isso, por fim, demonstra a inventividade e diferentes níveis de participação das mulheres na sociedade lavrista.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 



[1] Inventário de Joana Maria de Jesus, 24.08.1860, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 03, caixa 1045, maço 1514, documento 18.

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