A prostituição como meio de vida

 


 

À praça regurgitante de gente chegavam agora as mulheres-damas com seus vestidos berrantes – e lá veio com elas um cheiro doce de loção nacional, de brilhantina abundante e de pó de arroz Lady – muitas delas de mãos dadas e com sombrinhas de seda vermelha da última moda.

- É vem o gado! – bradou Ziu à porta do bilhar, enquanto passava giz na cabeça do taco.

(Herberto Sales)

 

Na literatura que se ambienta nas Lavras da Bahia, as prostitutas são personagens recorrentes. Essa área serviu como pano de fundo para todas as obras de Herberto Sales, um dos romancistas regionais que contribuiu para a difusão de um imaginário sobre os garimpos chapadenses e nelas, essas mulheres ganham notoriedade. Cascalho é o romance de Sales que mais explora o universo da garimpagem e, embora tenha sido publicado pela primeira vez em 1944, usa como marco temporal o final do século XIX. Na narrativa, vivendo entre homens de diversos expedientes, aparecem mulheres que usam o próprio corpo como meio de angariar fundos para o próprio sustento.[1]

Assim como em outras obras, o garimpeiro é a personagem central da saga de Sales. Esses homens, geralmente, aparecem nos textos seguidos pela prostituta – que formam quase a versão feminina deles no que tange aos objetivos na Chapada Diamantina. Para essas mulheres, seguir os trabalhadores trazia esperança de amealhar alguma riqueza, melhorar condições de vida ou obter favores que remediassem as urgências diárias que afligiam, sobretudo as mais pobres. Qualquer esforço era válido para escapar da miséria que grassava sobre a Província naquele tempo e que era retratada nas obras, imprimindo tons bastantes realistas às histórias.

Nas mesmas obras, ocupar-se nas Lavras parecia ter um significado especial para as mulheres livres de cor e libertas. Isso dava a elas a possibilidade de construir uma nova vida, para além dos limites do cativeiro.[2] Essas personagens ressaem nesse universo e são representadas como Florinda, “uma mulata fornida de carnes, que fazia vida em várias localidades das Lavras”; Joana Magra, que andava com a “carapinha acamada a doses cavalares de brilhantina”; a negra Vitalina, que só prestava para “descarregar o corpo” dos garimpeiros; Zefa Me-Pula, que trocava sexo por mantimentos na feira; Maria Boca-da-Gruna, que fazia seu ponto na porta venda de “Seu Frederico Macacão”. Na obra inclusive há a sugestão de que havia mulheres que chegaram a organizar cabarés, como o de Felícia que funcionavam “do outro lado do rio” Lençóis e no qual trabalhava a “negra Bataclã, boa fêmea, mas também uma colher-de-pau de primeira”. [3]

Já em Maria Dusá, romance que se ambienta num espaço e tempo semelhantes a Cascalho, a trama principal se passa em torno da prostituta homônima à obra. Nesse texto, o universo das mulheres damas é utilizado como uma arena em que a moralidade e a civilidade vigentes na época eram confrontadas tanto por elas como por aqueles que experimentavam condições de existência semelhantes às delas. Nesses espaços os autores sugerem que se delineavam estratégias de sobrevivência dessas mulheres que, apesar de constantes na literatura, estão preteridas na documentação do Estado. Desse modo, a literatura pode ser um testemunho alegórico dos autores, haja vista que ambos usaram de suas experiências para compor suas narrativas e que esses espaços eram palcos de tensionamento de poder.[4]

Mulheres semelhantes às desenhadas pelas penas de Herberto Sales e Lindolfo Rocha existiram no cotidiano lavrista. Todavia, a historiografia sobre elas tem acompanhado o silêncio das fontes, fazendo com que personagens significativos para o entendimento das experiências femininas dali permaneçam em ostracismo. Desse modo, é preciso dar voz dessas mulheres, sempre que possível, para explicar como elas lidavam com a prostituição nas Lavras e perceber como tal atividade se encaixava no universo do mundo do trabalho e da vida social revelando novos capítulos da história da Bahia.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 



[1] SALES, Herberto. Cascalho. 2. Ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1956.

[2] Sobre a miséria na Bahia no século XIX Cf. PEREIRA, Gonçalo de Atahyde. Memória Histórica e Descriptiva do Municipio de São João do Paraguassú. Salvador: Officinas da Empreza "A Bahia, 1907; _____ Memoria historica e descriptiva do municipio de Lençoes: Lavras diamantinas. Salvador: Officinas da Empreza "A Bahia", 1910; FRAGA FILHO, Walter. Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX. São Paulo: HUCITEC; Salvador: EDUFBA, 1996; GONÇALVES, Maria Salete Petroni de Castro. Garimpo, devoção e festa em Lençóis, BA. São Paulo: Escola de Folclore, 1984; MATTOSO, Katia M. de Queiros. Bahia, século XIX: uma província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; ______. Bahia: a cidade do Salvador e seu mercado no século XIX. São Paulo: HUCITEC, 1978.

[3] Ibid. passim.

[4] ROCHA, Lindolfo. Maria Dusá. São Paulo: Ática, 1978.


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