A microcultura feminina

 


Dentre as diversas dinâmicas que as mulheres pobres desenvolveram para poder sobreviver na Chapada Diamantina durante o século XIX, a microcultura agropastoril foi bastante popular. Alijadas de propriedades rurais, muitas transformaram espaços dentro das cidades e nas povoações em áreas para cultivo e para a pequena criação de animais. Os produtos, desses lugares, eram principalmente frutas – que poderiam ser negociadas in natura, ou em forma de compotas e doces – algumas verduras, legumes e raízes comestíveis – em especial a mandioca –, e cana de açúcar – em pequeníssima proporção. Além disso, existiam por lá a criação de animais de diferentes portes como: galinhas, perus e patos além de algumas cabras, ovelhas e porcos.

Valendo-me de inventários, pude notar a criação de animais com menor frequência do que as plantações. Os números que aparecem nos inventários apontam a presença tímida dessas culturas entre as mulheres. Em apenas 3% do universo dos 107 inventários pesquisado aparecem porcos e, o mesmo índice foi encontrado para as ovelhas. Quanto ao gado caprino a proporção encontrada foi de 0,9%. Apesar desses dados, tendo a considerar que esses animais contribuíram, de forma relevante, para produção de pequena escala e que a ausência na documentação se deve, principalmente, à sua liquidez e a uma possível sazonalidade, uma vez que os terrenos poderiam ser insuficientes para a coexistência de criação e de plantação.

Os índices de criação de suínos, de caprinos e de ovinos podem ainda estar escamoteados nas anotações genéricas que se faziam nos inventários. Em alguns documentos, os rebanhos são descritos, apenas, como de "toda sorte". Entres as mulheres mais pobres, pude observar isso na descrição de bens de Anna Joaquina de tal[1]. Em 1871, quando seu marido se encarregou de entregar à avaliação os bens que deixara, foram arroladas dez “cabeças de gado de toda sorte", que recebeu a quantia de 25$000 réis. O valor médio de 2$500 réis atribuído a cada animal leva a crer que não se tratavam de bois e vacas, uma vez que esses últimos atingiam cotações bem maiores na mesma época.

Quando o inventário de Anna Joaquina foi lavrado, os porcos eram avaliados por 16$000 réis em média. O gado bovino, por sua vez, atingia mais de 20$000 réis. Assim, é provável que o conjunto de animais da inventariada reunisse, somente, algumas aves de pequeno porte e uma ou outra cabeça de cabra. Com isso, Anna Joaquina representa o grupo de mulheres pobres que tiveram por meio de vida a pequena produção agropastoril e que, para isso, conjugava diferentes espaços.

As posses avaliadas permitem pensar que o trabalho com a terra trouxe alguma segurança para a vida de Anna Joaquina e dos seus familiares. Formar um patrimônio com rebanho e terra, ainda que de proporções reduzidas e de certa maneira indefinidos, possibilitou sua inserção no universo agropastoril, renda e, quiçá, alguma mobilidade social. Do mesmo modo, outras mulheres viveram explorando seus quintais. Essas pessoas puderam construir, para si, um meio de vida, que não foi capaz de torná-las abastadas, mas que garantiu meios de subsistência, participação na economia local e de aliviar as agruras da pobreza.

Por menor que fosse a produção nos espaços urbanos, eles poderiam se transformar em fontes de renda. As criações abasteciam, parcialmente o mercado local, uma vez que não geravam grandes volumes. Nesse sentido, às pequenas proprietárias possuíam meios de remediar as necessidades mais urgentes da vida, uma vez que as divisas geradas eram baixas. Por isso, dificilmente a pequena produção e o comércio de víveres se estabeleciam como principal fonte de renda. Um pequeno rebanho não era muito eficaz quando se tratava do tempo de maturação dos animais, sobretudo aqueles que se destinavam ao corte, como cabras e porcos. Quanto a isso, as galinhas eram mais producentes, entretanto eram pouco rentáveis. Do mesmo modo, as frutas e as verduras precisavam de tempo para se desenvolver. Nesse sentido, é possível especular que espaços urbanos, como os quintais, tenham sustentado culturas de pequena proporção, ou estritamente de subsistência, mas fundamentais para as estratégias de sobrevivência das mulheres na Chapada Diamantina.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 



[1] Inventário de Anna Joaquina de tal, 29.04.1871, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 03, caixa, 1027, maço 1496, documento 12.

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