A importância de ter escravos para as mulheres chapadenses do século XIX.
Algumas mulheres que conseguiram reunir algum cabedal,
empenhavam-se para a aquisição de escravizados. Entre essas mulheres
predominava os pequenos grupos de cativos. Geralmente contavam com conjuntos de
dois a cinco indivíduos. Um número bem reduzido de mulheres conseguiu uma
escalada no número de cativos em seu patrimônio, mas, apesar da prosperidade,
não conseguiram reunir um número semelhando aos encontrados entre os senhores
do Recôncavo e de outras áreas da Bahia daquela época.
As diminutas escravarias, encontradas
na zona das Lavras acompanharam a tendência dos sertões circunvizinhos. Diferentes estudiosos vêm
apontando essa realidade. Erivaldo Fagundes Neves[1],
um dos primeiros historiadores a se debruçar sobre o perfil das escravarias existentes
em Caetité, afirmou que entre 1768 e 1883 a maioria dos senhores detinha de 06 a
10 cativos. Maria de Fátima Novaes Pires[2],
por sua vez, defende um índice levemente menor para Caetité e Rio de Contas,
que oscila entre 05 e 10 escravizados. Kátia Lorena Novais Almeida esboçou um
quadro equivalente[3]. A partir da análise dos inventários
lavrados na comarca de Rio de Contas ao longo do século XIX, a historiadora
concluiu que mais da metade dos senhores, dali, tinham até cinco cativos.
Além da escassez de escravos no mercado, a carência de
recursos para novas aquisições concorria para escravarias de pequenas
dimensões. É importante ressaltar que a maior parte das inventariadas tinha
bens estimados em faixa inferior a 5:000$000 réis, e mesmo as de fortunas mais
valiosas sofriam com algumas limitações de caixa e oferta de cativos, haja
vista que, na segunda metade do século XIX, um cativo mais que 1:000$000 réis
facilmente. Assim, essas mulheres não tinham recursos, amplos, para novos
investimentos em cativos, uma vez que na conjuntura da época, em momentos de
inflação, a comercialização de escravos encontrava-se de forma reduzida, devido
aos elevados preços[4].
Adquirir um escravo era sinônimo de abdicar de outras
possibilidades, haja vista ser um bem de preço considerável. As avaliações dos
cativos nos inventários e os valores cobrados por cada um deles nas escrituras
de compra e de venda, que consultei, demonstraram que eram um bem pouco
acessível. Além disso, é curioso notar que homens e mulheres entre 20 e 50 anos
obtiveram avaliações muito próximas. Assim, é admissível que a inflação
e a redução da oferta foram aspectos decisivos para definir o patrimônio
de escravos, das mulheres chapadenses.
A posse, em comum, de cativos foi
a alternativa para contornar a conjuntura da época. Geralmente, o escravizado
era dividido com mais um dono e, por vezes, as inventariadas apresentavam mais
de um servo com posse coparticipada. O inventário de Maria Theodora Francisca
Dourado[5],
por exemplo, ilustra acerca da dimensão desse costume, demonstrando que, por
vezes, a propriedade era compartilhada por várias pessoas. Quando a dita Maria
Theodora morreu, em 1871, seu inventariante apresentou no rol dos semoventes
1/8 de um escravo avaliado em 1:000$000 réis, uma vez que o sujeito era tido,
em sociedade, com sete de seus cunhados.
Isso demonstra que alguns
escravos, nesses contextos, tornaram-se patrimônio familiar. Esses cativos
viviam a serviço do grupo de senhores em um sistema de compartilhamento bem
difícil de capturar com detalhes através do inventário citado, mas que decerto
exigia harmonia das partes para subsistir e que favorecia o desenvolvimento do
pequeno senhorio na região das Lavras.
Nos demais inventários, as
anotações sobre os partícipes na posse dos escravos eram fugidias. Os escrivães
omitiram, inclusive, os nomes dos sócios das titulares na maioria de suas notas
ou, quando os identificava, fazia isso sem maiores preocupações. Assim, com as
fontes que utilizei não posso afirmar que esse era um costume, amplamente, utilizado
pelas famílias de haveres limitados. De todo modo, isso permite entrever que a
dinâmica de posses compartilhadas de escravos era diversificada e cumpria papel
fundamental na composição do patrimônio das mulheres das camadas médias na
Chapada Nova.
O projeto tem
apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da
Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc,
direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo,
Governo Federal
[1] Erivaldo Fagundes Neves, “Uma
comunidade sertaneja: da sesmaria ao minifúndio: um estudo de história regional
e local”, Salvador: EDUFBA, 2008, pp. 269-70.
[2] Maria de Fátima Novaes Pires,
“Fios da vida: tráfico interprovincial e alforrias nos Sertoins de Sima
(1860-1920)”, São Paulo: Fapesp, 2010.
[3] Kátia Lorena Novais Almeira,
“Alforrias em Rio de Contas–Bahia: século XIX”, Salvador: EDUFBA, 2012.
[4] Sobre o aumento dos preços dos
escravos nos sertões baianos Cf.
Erivaldo Fagundes Neves. “Estrutura fundiária e dinâmica mercantil: Alto Sertão
da Bahia, séculos XVIII e XIX”, Salvador;Feira de Santana: EDUFBA; EDUEFS,
2005; Erivaldo Fagundes Neves, “Uma comunidade sertaneja”, op. cit; Erivaldo Fagundes Neves, “Sampauleiros
traficantes: comércio de escravos do Alto Sertão da Bahia para o oeste cafeeiro
paulista”, Afro-Ásia, n. 24 (2000),
pp. 97-128.
[5] Inventário de Maria Theodora
Francisca Dourado, 13.05.1871, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção
Judiciário (cível), Inventários, estante 03, caixa, 1014, maço 1483, documento
20.

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