A farinha como negócio feminino

 


Os inventários post mortem são fontes muito importante para o estudo das trajetórias femininas na Chamada Diamantina. No que tange aos modos de vida e trabalho, alguns desses documentos deixam transparecer a relevância do cultivo da mandioca para essas personagens. A análise do material consultado permite afirmar que, mulheres de pequenas posses estiveram atentas à potencialidade comercial da mandioca e, por isso, investiram tanto no cultivo quanto no beneficiamento da raiz, sobretudo na produção de farinha.

De modo geral, o mercado de farinha de mandioca era amplo e, consideravelmente estável, uma vez que era um item quase indispensável às mesas dos baianos do século XIX.  Os usos do produto eram muito variados, e por isso, se constituiu como gênero de primeira necessidade. Era a base da alimentação de escravos e pobres, bem como poderia ser apreciada em pratos finos, nos almoços e nos jantares das famílias mais abastadas[1]. Na Chapada Diamantina as coisas não eram diferentes.

A nutrição do garimpeiro dependia muito da farinha. Na feira da cidade ou nos barracões de seus empregadores, uma vez por semana, esses trabalhadores faziam o saco, isso é, adquiriam os mantimentos necessários para o trabalho de uma semana nas serras. Nessa provisão, a farinha de mandioca era o produto que mais se destacava. Como as fontes históricas se ausentaram de descrever no que consistia o saco, é a literatura que abre mais uma brecha para satisfazer a curiosidade sobre esse assunto, como se vê na descrição que fez Herberto Sales sobre esse costume dos trabalhadores do garimpo.

 

Dá-se o nome de "saco" à provisão semanal de víveres do garimpeiro, custeada ou não pelo fornecedor, pois há casos, embora raros, em que o garimpeiro trabalha por conta própria.

O saco é comumente constituído do seguinte:

1 quilo de carne

1 quilo de toucinho

1 litro de feijão

1 litro de arroz

6 litros de farinha

1/2 libra de café

Rapadura

Temperos (sal, pimenta-do-reino e cominho)

Gás (querosene)

Fumo[2]

 

Além da farinha, a mandioca rendia outros produtos apreciados no comércio. Bolos, beijus, mingaus, pamonhas, biscoitos, pães, pirões, avoadores e muitos outros doces e salgados que formavam um filão com grande demanda. A popularidade da farinha e seus derivados tornava esse ramo estável e com diversas oportunidades de inserção e de crescimento. Além disso, a possibilidade de cultivar e beneficiar a mandioca nos terrenos das residências tornava esse um negócio atrativo para as mulheres de poucos recursos. Todavia, o investimento inicial em utensílios necessários para o beneficiamento da mandioca em farinha e em outros produtos retardava o ingresso de muitas nesse mercado, sendo por isso necessário que essas mulheres tecessem alianças entre si para conseguirem subsistir em tal campo.

O inventário de Maria Benedita da Conceição[3], lavrado em março de 1874, fez notar algumas das possibilidades de parceria. No documento, a titular deixou três partes de terra, uma lavoura pequena e uma “oficina de farinha”, porém, o tabelião deixou de determinar qual a cultura que havia em sua “lavoura pequena” que foi avaliada em 24$000 réis. A existência de uma casa de farinha sugere que, ali, se plantasse mandioca. Todavia, ainda que a realidade fosse outra, para fazer funcionar a oficina de farinha de que dispunha, Maria Benedita precisava se manter ativa no rol de produtores, podendo para isso, alugar a oficina para que outros fabricassem farinha ali.

No entanto, a documentação revela que as mulheres mais pobres investiram muito do que tinham na produção de farinha. Em alguns inventários as lavouras de mandioca e as oficinas de farinha aparecem conjugadas, evidenciando que elas se dedicaram a todo o ciclo produtivo, que ia desde o cultivo até o beneficiamento da raiz. Dentre as que se enquadravam nesse rol estava Eduviges dos Anjos[4]. Em 1873 legou a seus herdeiros o Sítio Cangussu "com um rancho de palha com casa de farinha" e um "roçado de mandioca", embora seu inventário só tenha rendido um monte-mor de 508$000 réis. Esse documento, conjugado a outros que apresentam uma realidade semelhante, relanceiam a importância que a exploração da mandioca tinha nos espaços da microcultura lençoisense capitaneada por mulheres pobres.

Entretanto, o retorno econômico era parco, apesar dos esforços dessas personagens para atuarem em tal ramal. A pequena capacidade produtiva e a concorrência exterior eram os maiores entraves para a melhoria dos rendimentos. Com recursos limitados, produzindo numa escala bem menor que a dos concorrentes exteriores e enfrentando calamidades naturais, as mulheres que se dedicaram a esse ramo dificilmente conseguiam uma renda vultosa com tais negócios. Os preços da farinha também não asseguravam grande rentabilidade. As maiores cotações foram registradas, exatamente, nos momentos de menor oferta doméstica, o que deixava os maiores lucros para os concorrentes externos.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

 



[1] Pierre Verger, Notícias da Bahia de 1850, Salvador: Corrupio, 1999, pp. 160 – 1.

[2] Herberto Sales, Garimpos da Bahia. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura; Serviço de Informação Agrícola, 1955, pp. 36 – 7.

[3] Inventário de Maria Benedita da Conceição, 10.03.1874, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 05, caixa, 2076, maço 2547, documento 04.

[4] Inventário de Eduviges dos Anjos, 27.09.1873, Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), Seção Judiciário (cível), Inventários, estante 05, caixa, 1844, maço 2315, documento 10.

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